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“Só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático.” (Coringa – A Piada Mortal)
O que leva uma pessoa a um estado de loucura, de alteração mental?
No meu caso, só foi preciso uma sucessão de tristezas e uma decisão equivocada.
…
Primeiro, um pouco de bioquímica.
Neuroglicopenia: escassez de glicose no cérebro. A glicopenia afeta as funções dos neurônios e, por conseqüência, as funções cerebrais e o comportamento do indivíduo. Quadros prolongados podem resultar em dano permanente ao cérebro.
Essa escassez pode causar:
- Atividade mental anormal, prejuízo do julgamento;
- Indisposição não específica, ansiedade, alteração no humor, depressão, choro, medo de morrer;
- Mudança na personalidade;
- Atos automáticos e sem lógica.
Por alguns meses no ano que passou, fiquei bastante alterado quimicamente. O processo que levou a chegar no ponto que cheguei foi tortuoso.
…
Eu já estava em uma época complicada. Alguns problemas de trabalho, familiares doentes e tendo que ser apoiados de alguma forma. Em meio a isso, um incidente que trouxe uma tristeza gigantesca: o final do casamento de dois dos meus melhores amigos. E eu assisti a este final. Na minha casa, na minha sala de estar, em meio a choro, desespero, agonia e dor.
As semanas que se seguiram foram difíceis. Apoio e suporte para os amigos, constatação de que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Em meio a isso tudo, por conta da angústia, ninguém estava se alimentando direito e todos os envolvidos começaram a perder peso. E eis que veio a decisão estúpida.
Eu, do alto da minha ignorância (talvez estivesse atribulado demais para pesquisar antes, talvez eu tenha simplesmente faltado nesta aula de biologia) resolvi aproveitar o “efeito colateral” que estava ocorrendo e dar um impulso neste emagrecimento: cortei quase que totalmente qualquer carboidrato (a glicose é um carboidrato) da minha alimentação. Este tipo de dieta, eu só vim a descobrir depois, é extremamente agressiva para o organismo, deve ser feita de forma bastante controlada, não se corta de forma indiscriminada todo carboidrato e deve ser feita em períodos curtos – coisa de uma semana. Eu a mantive por meses seguidos.
Sempre fui uma pessoa bastante ativa. Fiz diversos esportes ou outros tipos de atividades físicas. Trabalhando em escritório e ficando mais sedentário engordei demais. Cheguei a pesar 99kg. Com corrida e escalada consegui reduzir bastante no espaço de um ano e estava com mais ou menos uns 85kg. A “dieta” maluca que fiz foi mais efetiva. Em um mês e meio eu já estava com 74kg, mas a um custo altíssimo.
Eu simplesmente pirei. As coisas tinham parado de fazer sentido lógico para mim. Falei, agi e analisei situações de formas totalmente erradas. Errei feio diversas vezes e com isso machuquei muito algumas pessoas no processo. O pior de tudo: apesar de estar alterado a memória não foi afetada. Eu lembro de cada coisa que foi feita, cada ato impensado, cada palavra dita.
Somente quem passou por um estado desses sabe da angústia que é não confiar nos seus próprios pensamentos, que parecem certos, mas não encaixam com o que se vê. É um estado de viver com medo constante de si, enclausurado em seu próprio corpo, sem saber se o que você fará em seguida é correto ou não, pois parece certo, mas pode não ser e você não possui mais os meios de analisar isso.
Mas como foi possível que ninguém notasse o que estava acontecendo exatamente? No trabalho notaram que havia algo estranho, afinal meu rendimento tinha caído muito, mas atribuíram à fase difícil que eu estava passando. O pai da Letícia estava internado no hospital e ela estava mais focada nisso. As outras pessoas próximas tinham foco nos seus próprios problemas e algumas em seus próprios interesses. Eu mesmo, em meio a minha confusão, não conseguia ouvir e entender que algo estava realmente estranho.
Dentro de tudo isso, depois de meses sendo agredida diretamente, meses nos quais inclusive terminamos o relacionamento 3 vezes, a Letícia notou um detalhe importante: meu hálito indicava que eu estava com cetose. Ela já possuía esta referência por conta do pai. Além disso, ela havia passado por períodos nos quais ele sofreu de confusão mental severa, por conta de instabilidade química no organismo. Como sempre, mesmo tendo sido tratada por mim do pior jeito possível, era ela que estava lá do meu lado para ajudar.
Mais bioquímica: cetose é processo no organismo no qual o fígado converte gordura em ácidos graxos e corpos cetônicos, que podem ser usados pelo corpo para obter energia no lugar da glicose. No cérebro o “rendimento” energético dos corpos cetônicos é somente parcial, se comparado com a glicose.
Havia algo errado com o meu organismo. Letícia achou que eu poderia estar com desequilíbrio hormonal ou ainda início de diabetes. Possuo o quadro no meu histórico familiar e ela achou que poderia ter sido deflagrada principalmente pelo meu estado emocional. Fui ao médico fazer uma série de exames e com base nas alterações de sangue, estado de certos órgãos (como o fígado) e da dieta que eu estava fazendo, foi diagnosticado o problema de forma correta. A volta ao estado normal com a regularização da glicose foi lenta e demorou quase um mês para tudo se acertar.
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Isso tudo me isenta dos erros que cometi, das atitudes que tomei, das omissões pelas quais optei?
De forma alguma.
Eu falhei diversas vezes nessa história toda e a culpa foi toda minha quanto a meus atos.
Mas acho válida a análise disto tudo feita pelo meu psicólogo (sim, voltei a fazer terapia neste meio tempo, pois estava alterado demais): a descompensação química explica a intensidade, impulsividade e confusão das atitudes, mas não as causas. As dúvidas e questões que me levaram a agir como agi estavam dentro de mim e precisavam ser trabalhadas. O ponto é: a alteração química apenas eliminou os freios racionais e morais que me fariam agir de um jeito correto e normal com essas questões.
E com tudo isso, fica a lição mais importante: nunca mais eu paro de comer pão.
