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Não, não teremos linearidade temporal na ordem dos textos.

Por conta disso, vou tratar de algo que ocorreu no final do ano: o falecimento do pai da Letícia.

Primeiro, duas explicações:

  1. Nestes 10 anos junto à Letícia, este era um momento que sempre foi aguardado com temor. A saúde do pai dela sempre foi muito frágil e cada ida ao hospital sempre foi o prenúncio do que poderia vir. Foram 10 anos de muita luta da parte dele, superando seu corpo além da expectativa dos médicos.
  2. Não, não fiquei 10 anos junto à Letícia. Uma das coisas que ocorreram este ano (e que tratarei mais para frente) foi nosso período de separação. Passamos 5 meses separados e parte deste tempo realmente afastados.

Como falei, foi o pior ano de minha vida. De tudo de ruim e do pouco de bom, entre todos os erros e acertos, talvez a única coisa que eu realmente agradeço foi que naquele momento eu estava novamente perto dela. Não juntos, mas novamente próximos.

Era uma terça e o dia tinha começado bastante chuvoso. O pai da Lelê estava internado no Sírio Libanês desde o dia anterior e desta vez tudo parecia mais grave, mais delicado, mais instável.

Preocupado com o que poderia acontecer, saí mais cedo do escritório, ainda no meio da tarde. Queria ficar em casa, de prontidão caso o pior ocorresse.

Subi a Teodoro e cheguei ao metrô Clínicas. De lá comecei a trocar mensagens de texto com a Lelê pelo celular. Ele havia piorado. Resolvi ir direto ao hospital. No espaço de três estações, a conversa continuou sendo feita por mensagens. Quando desci do vagão na plataforma da Trianon recebo a notícia. Ele tinha acabado de morrer.

Naquele instante eu deixei de sentir meu corpo. Fui tomado por um misto de desamparo, tristeza absoluta, necessidade desesperada de estar ao lado dela, abraça-la e conforta-la. Saí correndo escadas acima. Na Paulista, a chuva caia forte e encharcava tudo ao redor. Corri. Corri como poucas vezes corri. As centenas de metros que separam o hospital da estação passaram em volta como se nada fossem. Só queria chegar lá e tentar fazer algo, o mínimo que fosse.

Saguão da UTI. Ela saiu da área restrita, os olhos vermelhos, o corpo desolado. Foi um abraço envolto ainda no resto da chuva, molhado, incômodo, triste, mas era tudo que eu queria fazer naquele momento. O que eu temi por 10 anos tinha acontecido. E ela tinha visto tudo. As linhas se tornando horizontais, os últimos estertores, a vida se desprendendo de forma delicada e definitiva.

A espera. Lidar com o mundo real e as pessoas. Parte do ritual de transição, mas mesmo assim difícil e incômodo. Ligações, papeladas e um mundo aonde se lucra com a morte de outra pessoa.

De tudo e em tudo, a presença dos amigos nesta hora é o que traz conforto. Apazigua a dor, mostra que não estamos sós, mostra que temos com quem contar. Mas mesmo em meio ao infortúnio, existe terreno para egoísmo. Ocorre a invasão do espaço, desrespeito e acusações. Na balança, muitos tornaram a passagem mais leve e poucos aumentaram o sofrimento da perda, tanto dela quanto minha. Egoísmo faz parte do gênero humano, temos que aceitar isso de uma forma ou de outra, mas mesmo aceitando temos no mínimo o direito de escolher aqueles que queremos ao nosso lado nesta hora.

Foi o final de uma história longa de vida. Mesmo sendo triste e doloroso, o momento serviu para ver o que realmente importava e para um recomeço. Toda a preocupação, carinho e doação condensados levaram a repensar valores, rever decisões e optar por tentar novamente. O pai da Letícia havia falecido, mas foi ao mesmo tempo o nosso recomeço, um ao lado do outro.

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